Pressão alta: por que ela é chamada de "assassina silenciosa"
A hipertensão arterial é uma das doenças mais comuns — e mais subestimadas — da cardiologia. Ela afeta cerca de um em cada quatro adultos no Brasil, mas grande parte das pessoas com pressão alta não sabe que tem a doença. É justamente por isso que ela ganhou o apelido de "assassina silenciosa": na maioria dos casos, não causa nenhum sintoma até que já tenha provocado danos importantes em órgãos como coração, rins, cérebro e olhos.
O que é a hipertensão arterial
A pressão arterial é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias ao circular pelo corpo. Ela é medida por dois valores: a pressão sistólica (quando o coração se contrai e bombeia o sangue) e a diastólica (quando o coração relaxa entre um batimento e outro). Considera-se hipertensão quando os valores se mantêm, de forma persistente, iguais ou acima de 140/90 mmHg — embora metas mais rígidas possam ser recomendadas para pacientes com outras condições associadas, como diabetes ou doença renal.
Por que ela é silenciosa
O sistema cardiovascular é resiliente e se adapta lentamente ao aumento da pressão. Isso significa que os vasos sanguíneos e o coração podem sofrer sobrecarga por anos, quase sempre sem dor, falta de ar ou qualquer sinal de alerta. Quando sintomas aparecem — como dor de cabeça, tontura ou sangramento nasal — geralmente já indicam níveis pressóricos muito elevados ou complicações em curso, e não a hipertensão em sua fase inicial.
Esse é o motivo pelo qual a única forma confiável de saber se você tem pressão alta é medir a pressão arterial regularmente, e não esperar por sintomas para procurar um médico.
Os riscos de não tratar
Quando não controlada, a hipertensão exerce um esforço constante sobre o coração e os vasos sanguíneos, aumentando o risco de:
- Infarto do miocárdio, por acelerar o processo de aterosclerose (formação de placas nas artérias)
- Acidente vascular cerebral (AVC), tanto isquêmico quanto hemorrágico
- Insuficiência cardíaca, pela sobrecarga crônica do músculo cardíaco
- Doença renal crônica, já que os rins são extremamente sensíveis à pressão nos vasos
- Alterações na visão, por dano aos pequenos vasos da retina
- Aneurismas, pelo enfraquecimento progressivo da parede arterial
Quem tem mais risco
Alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolver hipertensão, entre eles:
- Histórico familiar de pressão alta
- Idade acima de 40 anos
- Excesso de peso e sedentarismo
- Consumo elevado de sal e alimentos ultraprocessados
- Consumo excessivo de álcool
- Tabagismo
- Estresse crônico e sono de má qualidade
- Diabetes e colesterol elevado associados
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico não se baseia em uma única medida isolada, especialmente feita em ambiente de consultório, onde a ansiedade pode elevar temporariamente os valores. Por isso, é comum que o cardiologista solicite a MAPA (Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial), que mede a pressão em intervalos regulares por 24 horas, incluindo durante o sono, ou a MRPA (Monitorização Residencial da Pressão Arterial), na qual o próprio paciente mede a pressão em casa, seguindo um protocolo definido.
Esses exames ajudam a confirmar o diagnóstico e a diferenciar a hipertensão real da chamada "hipertensão do jaleco branco", quando a pressão só sobe no consultório.
Tratamento: além dos remédios
O tratamento da hipertensão é individualizado e frequentemente combina mudanças no estilo de vida com medicação, quando necessário:
- Alimentação: redução do consumo de sódio, priorizando alimentos in natura
- Atividade física regular: ao menos 150 minutos de exercício aeróbico moderado por semana
- Controle de peso: mesmo reduções modestas já têm impacto significativo na pressão
- Redução do álcool e cessação do tabagismo
- Manejo do estresse e melhora da qualidade do sono
- Medicações anti-hipertensivas, escolhidas de acordo com o perfil de cada paciente e outras doenças associadas
O que fazer a partir de agora
Se você tem mais de 18 anos, o ideal é medir a pressão arterial pelo menos uma vez por ano, mesmo sem sintomas — e com maior frequência se houver fatores de risco. Se você já sabe que tem hipertensão, o acompanhamento contínuo é o que faz a diferença entre viver bem com a doença e sofrer suas complicações mais graves, que muitas vezes são evitáveis.
A boa notícia é que a hipertensão, quando identificada e tratada adequadamente, tem excelente controle na grande maioria dos pacientes. O primeiro passo é simples: medir a pressão e conversar com um cardiologista sobre o que os números significam para você.
Sobre a autora
Dra. Camilla Vilela Vieira é cardiologista especialista em insuficiência cardíaca avançada, dispositivos cardíacos e transplante cardíaco, com formação pelo InCor HC-FMUSP e observership no Baylor Scott & White Heart and Vascular Hospital (EUA).